terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Uma viagem que vale a pena

Viagens e deslocamentos temporais são assuntos que fascinam milhões de pessoas em todo o mundo. Os roteiristas e diretores de cinema fazem parte dessa parcela da população. Prova disso é que volta e meia surge um filme bacana que aborda esta temática de maneira, senão séria, ao menos muito divertida.

É o caso da série De volta para o Futuro, que mostra as idas e vindas do jovem Marty Mcfly pelo tempo, da comédia Feitiço do Tempo, em que Bill Murray vive um metereologista as voltas com um dia que se repete e de Em algum lugar do passado, mistura de romance e drama que conta a história de um casal separado pelo tempo.

A ficção cientifica Contra o Tempo é o mais novo exemplar dessa categoria e, embora se identifique em partes com essas três produções, é na sensibilidade e sofisticação de Em algum lugar do passado que o filme parece se inspirar com mais profundidade.

A trama gira em torno do Código Fonte, um projeto secreto do governo americano que permite a um capitão da aeronáutica assumir durante oito minutos a identidade de um passageiro comum que está num trem que explodirá. Uma vez no trem o oficial precisa descobrir quem é o terrorista e impedir que outros ataques aconteçam.

É na recorrência das ações que a história acontece, pois como na primeira incursão o militar não descobre quem é o vilão, ele precisa voltar diversas vezes, repetindo de novo e de novo os oito minutos de vida que terá até o trem explodir.

Deixando de lado a física quântica e as teorias de realidades alternativas, que por sorte consomem pouco tempo da história, o que torna o filme interessante é fixar o foco narrativo não nas viagens temporais, e sim na pessoa do Capitão Colter Stevens, que ao mesmo tempo em que tem a missão de salvar a vida de centenas de pessoas, ainda precisa encarar seus fantasmas e medos particulares e, como um verdadeiro soldado, sacrificar-se pelo que é certo.

Jake Gyllenhaal interpreta com habilidade o papel do militar patriota com cara de gente comum e o elenco de apoio também não deixa a desejar. Com uma atuação discreta Michelle Monaghan convence como o par romântico do galã e Vera Farmiga, como a oficial rígida, mas de coração mole, está ótima.

Com um final aberto que, se não explica, também não confude, Contra o Tempo vale cada segundo.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

O cinema consoante de Woody Allen


Escândalos a parte, Woody Allen tenta ser um sujeito comum. Fã de jazz, toca clarinete num bar uma vez por semana. Possui muitas neuroses e as trata indo religiosamente ao terapeuta. Gosta de bom livros, restaurantes e é apaixonado por cinema. Seus relacionamentos são confusos e a fama de intelecutal o persegue para todo lugar que vá.

A cinematografia deste nova-iorquino, porém, nada tem de comum. Dono de uma das mais sólidas e respeitáveis carreiras autorais da história do cinema, Allen afirma que dirige filmes porque assim “se sente melhor”. Misturando drama e comédia, o cineasta geralmente aborda temas espinhosos como adultério, assassinato e o significado da existência. Os vocábulos a seguir formam um mini-roteiro básico para tentar decifrar um pouco mais esse judeu norte-americano que se tornou um ícone de qualidade no cinema mundial.

AMOR – O mais universal e inexplicável sentimento humano é ainda mais universal e inexplicável na visão de Allen. O amor extraconjugal do cunhado pela irmã de sua mulher, o amor fraterno do tio pela sobrinha órfã ou o amor generoso das irmãs que, mesmo com suas diferenças, se admiram e se respeitam perfazem algumas das formas como este sentimento se manifesta em sua obra. Seus personagens perseguem continuamente o amor sem jamais alcança-lo em sua plenitude.

CINEMA – O fascínio que Woody Allen demonstra pela sétima não encontra paralelo em nenhum realizador da atualidade. Filmes como A rosa púrpura do Cairo, no qual um personagem sai da tela para a vida real, Dirigindo no Escuro, em que um cineasta fica cego justamente no momento que tem sua grande chance ou Celebridades, que flerta com o mundo egocêntrico dos astros milionários, reafirmam sua admiração e carinho pela arte cinematográfica.

FAMÍLIA – Que a convivência familiar é marcada por hipocrisias, traições e idiossincrasias na obra de Allen não se discute. Mas é também na família em que seus personagens encontram abrigo e compreensão. O filho judeu que procura os pais para dizer-lhes que vai virar católico, a irmã viciada que pede dinheiro à careta ou o irmão mais velho que procura o caçula para “dar um jeito” na amante incômoda mostram que a família é uma instituição falida, mas que ainda não foi inventado nada melhor.

MUSAS – A cine biografia de Allen está associada às musas na mesma intensidade que sua biografia pessoal está relacionada aos escândalos. De Diane Keaton, em O Dorminhoco e Noiva neurótico, Noiva nervosa, passando por Mia Farrow, em produção como Simplesmente Alice e Hannah e suas irmãs, à Scarlett Johansson nos filmes Match Point e Scoop - O Grande Furo, as musas de Allen desempenham papel de destaque na obra do cineasta.

NOVA IORQUE – Ela é considerada a capital do mundo, mas para Woody Allen a cidade de Nova Iorque é o grande quintal de sua casa. Território em que os personagens da maioria de seus filmes contracenam, a grande maçã é retratada em todas as suas dimensões. Os apartamentos apertados, as livrarias escondidas em bairros distantes e os bancos do Central Park são cenários recorrentes nos filmes deste que se define um “cineasta nova-iorquino”.

PERVERSÃO – Uma das constatações ao analisar a produção cinematográfica Woodyniana é que não existem limites para a imaginação humana quando o assunto é perversão. O médico que se apaixona e consuma o seu amor por uma ovelha, o bobo da corte que mesmo sabendo da morte certa seduz a rainha com afrodisíacos ou o respeitável senhor de idade que sente prazer em se travestir de mulher são apenas alguns dos personagens pervertidos que povoam os filmes de Allen.

SEXO – Com uma obra no currículo chamada Tudo o que você sempre quis saber sobre sexo, mas tinha medo de perguntar é natural que este tema seja recorrente na filmografia do cineasta. Em seus filmes, as pessoas são movidas pelo desejo sexual e não respeitam convenções, tabus familiares ou classes sociais. Taras, fetiches, desejos e paixões motivam personagens que, numa perspectiva amoral, buscam apenas a satisfação do mais básico dos instintos humanos.

VIOLÊNCIA – As digressões sobre violência na obra de Woody Allen acontecem de muitas formas. A violência pode ser explicitamente cruel como o assassinato premeditado de Crimes e Pecados ou galhofeiramente cômica como os assaltos hipnóticos de O escorpião de Jade. Para Allen a brutalidade nos senhores de terno e gravata é mais selvagem que em marginais e ladrões. Os meios é que mudam.

Em Melinda & Melinda, filme de 2005, um dos personagens, alterego do cineasta, reflete que a existência pode ser uma engraçada comédia ou uma dramática tragédia, tudo depende do ponto de vista. Woody Allen escolheu a sua forma de ver vida. Descubra qual assistindo seus filmes.

Texto publicado originalmente no site www.sarcastico.com.br