quinta-feira, 30 de julho de 2009

Fantasmas desenterrados

Livrar-se do charme e da licença para matar de 007 foi algo extraordinário para Pierce Brosnan. Se a franquia do mais conhecido agente secreto do cinema fez bem ao bolso do ator, não beneficiou em nada suas habilidades dramáticas. Despojado do smoking de James Bond, ele pôde mergulhar em papéis mais consistentes e, porque não dizer, mais profundos.

Em À procura de vingança Brosnan é Gideon um ex-combatente da Guerra Civil americana que foge desesperadamente do Coronel Carver, personagem de Liam Nesson. Este westner à moda clássica inova ao substituir planícies desertas e amareladas por montanhas brancas cobertas de neve.

Não fosse o infeliz título brasileiro, até o final do filme é impossível perceber quem está do lado certo, ou melhor, quem está menos errado dos dois. O duelo derradeiro faz com que ambos desenterrem seus fantasmas e, ao encarar seus piores demônios, encontrem um caminho de paz.

Mesmo aparecendo apenas nos minutos finais Anjelica Huston, como Madame Louise, empresta beleza e simpatia a um gênero cinematográfico dominado por homens rudes e malvados. Anjelica, como certos westners, parece ficar cada vez melhor com a passagem do tempo.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Um anti-herói bacana, mas não dessa vez

Em Adrenalina 2: Alta voltagem, segunda aventura de Chev Chelios (Jason Statham), o matador de aluguel persegue uma gangue que roubou seu coração e, no lugar, instalou uma espécie de coração artificial. Como o equipamento funciona com bateria, Chelios volta e meia precisa de uma carga, donde surgem os momentos mais engraçados do filme.

Grudar um carregador de bateria automotiva na língua, levar choque de policiais ou esfregar-se sexualmente nas pessoas são algumas das alternativas que Chelios encontra para manter seu coração batendo. Assim como no primeiro filme, a cena de sexo entre o matador e sua namorada Eve (Amy Smart) é divertidíssima e, digamos, reanima o matador a continuar sua busca.

Porém, ao tentar fazer um filme pop e descolado, os diretores Mark Neveldine e Brian Taylor passaram da conta e erraram a mão. Misturando um roteiro cheio de ligações com o primeiro filme, que mais confunde do que esclarece e situações ainda mais bizarras e inverossímeis, Chelios acaba se tornando apenas uma caricatura do anti-herói bacana do primeiro filme.

Destaque para a participação meteórica de David Carradine que, confesso, só fui descobrir o papel ao consultar o IMDB.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Autoridade e disciplina

Que a saga de Harry Potter flerta com a filosofia clássica não é nenhuma novidade. Um livro inteiro dedicado a esse assunto foi lançado pela editora Madras há não muito tempo. A questão moral e ética do indivíduo, o bem contra o mal, o apego aos valores e virtudes, o inegoísmo como a única alternativa para evolução humana e tantos outros temas já foram abordados por J. K. Rowling, com maior ou menor intensidade, nos sete livros da série. Coube a cada um dos cineastas responsáveis pelas adaptações cinematográficas selecionar as abordagens que julgavam fundamentais para transformar em imagens as palavras da escritora.

Em Harry Potter e o Enigma do Príncipe, sexto filme da franquia do bruxo teen, o diretor David Yates privilegia ao longo dos 153 minutos de duração dois temas principais que, não por acaso, perfazem os elementos motivadores das personagens centrais e influenciam diretamente as decisões por elas tomadas: a autoridade e a disciplina.

No filme, a autoridade se manifesta em suas duas formas tradicionais: a teórica e a prática. O exemplo de autoridade prática cabe ao Professor Severo Snape. A autoridade de Snape frente aos alunos se manifesta de forma prática, ou seja, eles temem o professor muito mais em razão da sua posição, da sua possibilidade de puni-los, do que efetivamente por seu conhecimento. O antagonismo entre Harry e Severo Snape advém, principalmente, desse questionamento. É claro que Snape tem as qualidades e o intelecto necessário para ser um dos mais principais professores de Hogwarts, mas sua forma de agir o faz ser reconhecido como alguém a ser temido e não como alguém a ser respeitado.

O diretor Alvo Dumbledore, por sua vez, é a expressão singular da autoridade teórica. A autoridade teórica é exercida por aqueles que detêm o conhecimento e, principalmente, sabem manifestar seu saber e transmiti-lo aos demais. Dumbledore se encaixa com precisão no papel do mestre, do sábio. Suas ações primam pela nobreza e, mesmo quando em certo momento do filme ele diz à Harry que mais uma vez precisará exigir muito dele, sua autoridade é manifestada pela sabedoria e experiência, e não pela força ou imposição. Como Sócrates quando disse que só sabia que nada sabia, Dumbledore também conhece suas limitações e fraquezas, e é justamente essa consciência que o torna superior aos demais.

A disciplina, no entendimento mais profundo do termo, está presente em grande parte dos aprendizes de bruxos de Hogwarts. Cada um dos estudantes busca se disciplinar para aprender mais e evoluir como bruxo. Mas as três características que fazem de um aluno um discípulo, devoção, investigação e serviço, estão presentes em Harry Potter mais do que em qualquer outro.

Harry é devotado integralmente ao seu mestre, no caso Alvo Dumbledore. As palavras do sábio têm força de lei para Potter que, em determinada seqüência do filme, obedecendo ao que Dumbledore lhe ordenara, acaba impingindo-lhe dores terríveis. Acreditar no mestre é fundamental para o discípulo, custe o que custar, doa a quem doer. A investigação aparece em muitos momentos do filme como quando Harry espiona Draco no vagão do trem ou quando ele tenta descobrir o segredo que guarda o professor Horácio Slughorn. E o serviço se manifesta justamente nas ações de Potter ao seguir a sabedoria e os conselhos do mestre. Harry experencia sentimentos nobres e sombrios, ambos necessários para que ele cumpra sua difícil missão.

Harry Potter e o Enigma do Príncipe é, de fato, o início do fim da história do bruxo mais famoso do mundo. Que as relíquias da morte não tardem a ganhar as telas grandes.

Muito pouco

Quando os filmes de Ridley Scot não fazem sucesso junto ao público, junto à crítica, ou junto a ambos, só resta ao cineasta culpar uma pessoa: ele mesmo. Afinal de contas, espera-se que alguém que antecipou o futuro com Blade Runner e resgatou a história com Gladiador supere-se a cada filme. Infelizmente isso não acontece.

Rede de Mentiras é um desses casos. O filme é ágil, bem dirigido e ainda melhor editado. O roteiro é bom e as personagens expressam alguma profundidade dramática, mérito mais dos coadjuvantes do que dos atores principais.

No filme Leonardo DiCaprio é um espião de campo que atua no oriente médio enquanto Russel Crowe é um agente que trabalha no quartel-general da CIA. A relação conflituosa entre os dois e os pontos de vistas antagônicos das personagens centrais é que dão tom ao filme. Crowe é a América clássica e DiCaprio o país que tenta se adaptar aos novos tempos. Enquanto um quer evitar mortes desnecessárias, o outro acredita que para os objetivos serem alcançados, não importa o número de perdas.

O diretor tinha em mãos um argumento para fazer um filme político, mas se restringiu a fazer um agitado filme de ação. Muito pouco para Scott.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Universo sombrio

Philip K. Dick está para os escritores de ficção científica assim como Blade Runner está para o cinema deste mesmo gênero. Não é a toa que o clássico dirigido por Ridley Scott e protagonizado por Harrison Ford seja adaptado de um dos livros de Dick.

Além da fábula do caçador de andróides, outras produções como Minority Report , O Vingador de Futuro e O pagamento também são inspiradas em obras lançadas pelo escritor.

Em O homem duplo, título obtuso de A Scanner Darkly, Dick aborda um tema muito particular em sua vida e na de muitos de seus conhecidos: o uso de drogas. A trama gira em torno de um agente de uma organização governamental que se infiltra num grupo de usuários para conhecer seus hábitos.

A adaptação cinematográfica dirigida por Richard Linklater, do já clássico Antes do Amanhecer, mergulha de cabeça nesse sombrio universo das drogas e dos dependentes químicos.

Embora o filme tenha sido mais discutido em função da textura de suas imagens, que parecem um desenho animado feito com pincel e tinta, Linklater fez um grande pequeno filme, com questionamentos morais e éticos que, embora não cheguem a uma conclusão, valem pela especulação.

Keanu Reeves, Woody Harrelson, Winona Ryder e Robert Downey Jr. compõe o elenco principal. Os dois últimos, não por acaso, vítimas do efeito nocivo das drogas em suas vidas.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Aceitação

Muito se alardeou que John Rambo, o quarto filme da série protagonizado por Sylvester Stallone, era a redenção do personagem e do diretor-ator. Papo furado.

Na quarta aventura do ex-combatente do Vietnam, Rambo está vivendo na Tailândia e divide seu tempo entre caçar cobras e transportar pessoas numa embarcação caindo aos pedaços. Na Birmânia, país vizinho a Tailândia, uma das mais violentas guerras civis da história mundial já se perpetua há quase 60 anos. Quando Rambo aceita transportar um grupo de missionários que desejam levar alimentos e remédios para os refugiados é que a ação tem início.

Como o grupo não retorna na data prevista, o líder da congregação pede a Rambo que leve um grupo de mercenários ao local onde deixou os missionários na tentativa de resgatá-lo.

Rambo, antes de assumir a contragosto o comando do pelotão de resgate, trava a mais sombria das batalhas que já enfrentou, contra ele mesmo. O anti-herói compreende que ele nada mais é do que uma máquina de guerra com vontade de matar. Em algum momento do filme Rambo diz que ele não matou por seu país ou por Deus, ele matou por ele mesmo. Quando se descobre a sua vocação, fica muito mais fácil fazer o que é preciso ser feito.

Stallone demorou quase 20 anos para produzir este que deve ser o último capítulo da série e acertou ao manter-se fiel ao personagem. As cenas de ação são colagens de cabeças destruídas, membros arrancados e corpos dilacerados – e esses são os grandes momentos do filme. Assim como Rambo entende sua missão, Stallone também compreende que seu papel na indústria cinematográfico é produzir filmes em que a ação explícita substitua a necessidade de algum elemento dramático.

O filme não é a redenção de Rambo e Stallone e sim a aceitação de quem eles de fato são. E isso já é uma grande coisa.

terça-feira, 21 de julho de 2009

Convicção trágica

Logo nas primeiras linhas de Crônica de uma morte anunciada o escritor Gabriel Garcia Marques conta que Santiago Nasar, personagem central da trama, vai morrer. Não se criam expectativas, suposições ou divagações – a morte é certa, inevitável e inescapável.

Essa certeza da morte iminente também acompanha o expectador de Operação Valquíria. Mas, mais do que no expectador, essa convicção trágica está presente em todas as personagens centrais do filme, a começar pelo coronel Claus von Stauffenberg, papel de Tom Cruise.

Stauffenberg, lidera um grupo de militares do alto escalão do exército alemão num audacioso plano para matar Hitler. A II Guerra Mundial está acabando e os militares traidores acreditam que, com Hitler fora da jogada, a redenção da Alemanha possa ser negociada mais pacificamente e, dessa forma, a Europa inteira não seja destruída pelos confrontos.

Mas qual é a graça de ver um filme sabendo o final? Essa pergunta o diretor Bryan Singer responde com competência. O filme é um suspense do início ao fim, principalmente quando o atentado é executado e os militares renegados não tem certeza da morte do líder nazista. A edição rápida que Singer emprega ao filme faz que, mesmo o expectador que já conhece o fim da história, passe a questionar se Hitler está morto ou vivo.

Kenneth Branagh, Tom Wilkinson e Terence Stamp dão o suporte necessário para que o astro de Top Gun seja o centro das atenções. Numa atuação contida, Cruise faz jus a figura emblemática e idealista do coronel Stauffenberg, um militar que provou que nem todos os soldados alemães eram nazista.

terça-feira, 7 de julho de 2009

Vaginas fascistas

Marion é uma fotógrafa francesa que tem um grave problema de visão. Jack é um norte-americano hipocondríaco e decorador de interiores. Passeando dois dias em Paris esse inusitado casal vai descobrir as misérias e grandezas de um estranho sentimento chamado amor.

Se Jack fosse um cineasta, seria Woddy Allen em seus momentos mais neuróticos. Marion, por sua vez, seria ainda mais extravagante que Baz Luhrmann. Se o norte-americano fosse um jogo, seria algo como xadrez. A francesa, frenética e impulsiva, seria hóquei sobre o gelo. Se o decorador fosse uma cidade, seria Nova Iorque. A fotografa, Paris.

Essa mistura de estilos, gostos, atitudes, personalidades e influências culturais que se retro-alimentam diretamente, faz de 2 Dias em Paris uma comédia que, além do humor óbvio do gênero, ainda apresenta uma reflexão sobre um mundo em que a redução das distâncias geográficas implica diretamente no distanciamento humano entre as pessoas.

Escrito e dirigido por Julie Delpy, o filme retrata esses dois dias que o casal, em uma turnê pela Europa, passa em Paris antes de seguir viagem para os Estados Unidos. Delpy interpreta a fotógrafa Marion e Adam Goldberg personifica com competência o inseguro e desajeitado Jack. A relação de Jack com os sogros e a cunhada e as conversas dele com os amigos franceses de Marion rendem alguns dos momentos mais engraçados da produção.

Numa dessas conversas, um dos amigos da fotógrafa fala para Jack que detesta tanto um determinado estilo de depilação feminina que quando a vê associa imediatamente ao bigode característico de Adolf Hitler. Quando Marion chega e pergunta sobre o que os dois estão conversando, Jack responde com uma objetividade desconcertante: sobre vaginas fascistas.

Apesar de algumas cenas desnecessárias como a aparição da fada, 2 Dias em Paris diverte bastante em seus pouco mais de 90 minutos de duração. E, afinal de contas, o que se pode querer mais?

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Herói, rabugento e racista

Walt Kowalski é um ex-combatente da Guerra da Coréia que não tinha pena em matar seus inimigos. Hoje, depois de uma vida inteira trabalhando como montador de carros, é um aposentado rabugento, racista e mau humorado. Seu passatempo preferido é cuidar do seu Ford Gran Torino 1972 e praguejar contra seus vizinhos imigrantes e contra os jovens desocupados. Mesmo com todas essas características o velho Kowalski é o herói de Gran Torino.

Ao olhar em volta e perceber a decadência da América, Kowalski olha no fundo para dentro de si mesmo. Enquanto a vizinhança do seu bairro está repleta de imigrantes e gangues, a própria vida do aposentado não está melhor. Com a morte da esposa, Walt se vê perdido num mundo que conhece cada vez menos. Sua relação com os filhos é monossilábica e com os netos simplesmente não existe.

Quando o aposentado percebe que tem mais em comum com alguns dos vizinhos orientais do que com a própria família é sinal claro que as coisas não vão bem. Tentanto ajudar seus vizinhos, Walt só consegue prejudicá-los mais. E, à maneira clássica do herói americano, Kowalski vai resolver tudo, custe o que custar, doa a quem doer.

Clint Eastwood protagoniza e dirige Gran Torino de forma simples, direta e eficiente. O filme mostra que, mesmo em casa, podemos nos sentir completos estrangeiros. Ao apontar suas lentes diretamente para as idiossincrasias particulares do ser humano, Eastwood consegue ser por demais universal.