quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Imagens imperfeitas, trêmulas e deslocadas como a vida


Filmes que me causam alguma estranheza são os meus favoritos. Não é corriqueiro, mas vez por outra tenho a sorte de me deparar com esse tipo de produção que acende uma espécie de faísca interna e ilumina lugares que insistem em permanecer sombrios.

Sete Vidas me causou uma profunda estranheza, mas confesso que não sei exatamente se gostei do filme ou não. A tentativa de reeditar a parceira entre Will Smith e Gabriele Muccino, que se transformou no sucesso de crítica e público chamado A procura da felicidade, ficou anos luz da primeira empreitada.

A procura da felicidade era um filme motivador, uma história de auto-ajuda filmada em 24 quadros por segundo. Sete Vidas é exatamente o contrário, é uma história de autodestruição. Já nos primeiros segundos do filme o personagem interpretado por Smith anuncia que vai se suicidar e, por alguma razão, o espectador desde já tem a certeza de que isso vai acontecer.

O que segue ao anúncio do suicídio é um embaralhado de sequências que mostram as tentativas do personagem de Smith em melhorar a vida de algumas pessoas aparentemente sem ligação umas com as outras. Misturando alguns flashbacks e momentos de alucinação, o filme vai aos poucos elucidando porque motivo o personagem quer tanto ajudar essas pessoas. A principal falha do roteiro é que isso acontece aos poucos mesmo. Demora muito para o espectador entender os motivos por trás do desejo desesperado do personagem de Smith em ajudar esses próximos tão distantes dele. Quando enfim o motivo é revelado, todos já sabem.

Muitas das qualidades do filme, porém, residem exatamente no fato de ele ser um pouco desagradável. O tema é sombrio, a abordagem é dura, o final é um dos mais depressivos da história recente do cinema e as imagens são imperfeitas, trêmulas e deslocadas como a vida do personagem principal.

A atuação de Smith também deixa a desejar. Seu personagem parece sempre carregar um peso maior do que sua força e o risinho forçado que não sai dos lábios do astro também em nada colabora para melhorar seu desempenho.

Gabriele Muccino, por sua vez, quis fazer algo extremamente diferente do seu primeiro encontro com Smith e conseguiu, mas não deveria. A segurança e a cumplicidade entre diretor e ator na primeira parceira virou uma obsessão em fazer uma obra densa e profunda.

Uma das melhores sequencias acontece quando Smith leva o cachorro da personagem de Rosario Dawson para passear e mal consegue segura-lo pela coleira. Algo bastante curioso que num drama o destaque fique por conta de uma cena de comédia pastelão.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Cinema autêntico


Se não me engano foi Carlos Manga que numa entrevista, ao falar de Frederico Fellini, afirmou: “Fellini é um cineasta, eu sou apenas um diretor de filmes.” Modéstia à parte, ou não, Manga deixava claro que existiam, pelo menos, dois tipos distintos de realizadores de cinema, aqueles cujo trabalho duro resulta num filme e aquela meia dúzia de privilegiados que fazem arte.

Guilhermo del Toro, inquestionavelmente, pertence ao seleto clã dos artistas. A transposição de Hellboy para o cinema consolidou o trabalho de um cineasta maduro, inteligente, ousado e com o domínio total das ferramentas de trabalho.

O Labirinto do Fauno, filme dirigido por Del Toro logo após a produção da primeira aventura do garoto do inferno, é puro cinema. E é cinema porque é visual demais. Cada fotograma, cada imagem, cada detalhe em cena tinha a intenção de transmitir uma mensagem: a de que, por mais incrível que pareça, é possível contar uma boa história na tela grande.

Se você é daqueles que acha que ao morrer Kubrick levou consigo o que restava de dignidade na sétima arte, um conselho: assista O Labirinto do Fauno e vivencie a experiência de desfrutar de uma autêntica obra de arte.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Fé e sangue


Ridley Scott anda com maestria na linha tênue que separa as obras de arte das criações bizarras. Com uma média expressiva de um filme a cada ano e meio, o cineasta vem se equilibrando como pode nesta corda bamba. Gladiador, o filme, pertence à primeira categoria.

Uma das muitas histórias que ronda a produção é a de que Scott teria ligado para prefeitos de várias cidades e perguntado: “Ei, por acaso vocês tem uma floresta inteira para queimar?” Quem assistiu a batalha inicial do filme vai entender porque era necessário queimar uma floresta inteira.

Apesar do sangue espirrado na tela em doses generosas, o tema do filme não é violência e sim outro, digamos, mais prosaico: a fé. Duvida? Segue a relação dos personagens e de suas crenças.

Maximus (o Gladiador): O general que se tornou escravo e depois gladiador acredita que a violência expressa nos campos de batalha é justificável se trazer a paz e possibilitar o seu retorno para os braços da mulher amada.

Marcus Aurelius (o Imperador Traído): O imperador romano crê que seu melhor general possa se tornar o líder que Roma precisa, mesmo que isso implique em jogar o filho, herdeiro natural do trono, para escanteio.

Commodus (o Filho Invejoso): Commodus é dos personagens aquele que tem mais fé. Ele acredita com convicção ser o melhor para o povo romano. Panis et circense, na sua nebulosa compreensão, é a nova tábua de salvação.

Juba (o Amigo Fiel): Juba é o prisioneiro que se torna amigo do solitário gladiador. Ao seu lado Maximus vai entender que a fé nas pessoas é possível, como aquela que Juba tem de um dia rever sua família.

Proximo (o Mercador Boa Gente): Proximo ganha vida com a morte das pessoas, seu estilo de vida é sustentado pela dor alheia, mas mesmo assim o negociante tem bom coração. Sua esperança é de honrar o homem que lhe deu a liberdade, justamente o imperador deposto.

Ridley Scott (O Diretor Esperançoso): Com uma história que tinha tudo para cair na pieguice do herói solitário contra o mundo de injustiça, Scott faz um filme bem amarrado e coeso. As batalhas internas dos personagens são maiores que as travadas com lanças, escudos, cavalos e tigres. Uma das melhores frases do filme é dita pelo então general Maximus que grita em frente aos seus melhores homens: “O que fazemos em vida ecoa por toda a eternidade.” Ridley Scott sabia disso e tratou de fazer um bom filme.