quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Ser ou não ser (um rato), eis a questão?


Falar sobre excelência da animação feita pelos estúdios Pixar é chover no molhado. Toy Story, em 1995, já mostrava que o estúdio comandado por John Lasseter não estava para brincadeiras. De lá para cá, não só a qualidade gráfica das peças produzidas pela Pixar aumentou como também a profundidade dos temas abordados.

Ratatouille, do diretor Brad Bird, elevou mais uma vez o conceito de animação gráfica. A plasticidade das cenas, que deixam Paris ainda mais bonita do que ela é em live action, recheada por um roteiro que traz pitadas de filosofia e auto-ajuda tornam o resultado final por demais saboroso.

A história na verdade são duas. A do rato que quer se tornar um cozinheiro e a do garoto que quer um emprego e uma namorada. Ambos se sentem deslocados no mundo em que vivem. Não aceitam que sua existência seja resumida unicamente a condição em que estão e vão batalhar para transformar seus sonhos em realidade.

Mas o grande personagem da história não é nem o rato Remy nem Alfredo Linguini o garoto que vai se transformar num chef de cuisine. O melhor papel do filme cabe ao crítico culinário Anton Ego que se julga acima do bem e do mal, capaz de elevar aos céus ou ao inferno qualquer restaurante. Sua reflexão final deixa uma mensagem antiga, mas por demais valiosa: a de que um homem, ou um rato, é do tamanho do seu sonho.

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Princesa Eterna


Dia desses, assistindo a um Woody Allen antigo, me deparei com uma fisionomia familiar. A face arredondada, os traços curvilíneos e a voz suave me despertaram lembranças de um tempo, que assim como todo o tempo, não volta mais.

Só nos créditos finais é que fui me dar conta que era Carrie Fisher a dona do rosto que me despertara atenção.

Se o nome de Carrie Fischer não consta em todas as enciclopédias de cinema, sua imagem com certeza sim. Afinal é ela a princesa rebelde e heroína que tenta derrotar o império intergaláctico na trilogia clássica de Guerra nas Estrelas.

E é o que para sempre ela será, ao menos para mim: uma eterna princesa.

Save the Princess!

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

O valor de um euro


Uma das coisas que os cineastas franceses não cansam de comprovar é que é possível fazer cinema americano mesmo estando separado por um oceano da terra do Tio Sam. Luc Besson que o diga.

Apesar da fotografia requintada, de algumas boas sacadas no roteiro e do charme natural das ruas parisienses não há como assistir ao filme Amar... Não tem preço sem pensar nas comédias românticas americanas que lotam as prateleiras das locadoras.

Audrey Tautou é Irène, uma oportunista de bom coração que se apaixona por Jean, um garçom atrapalhado vivido pelo ator Gad Elmaleh. O casal é convincente nas interpretações, mas isso é pouco para segurar o filme.

Vale pela beleza de Audrey, deslumbrante nos vestidos Chanel, e pela seqüência que mostra que o valor de um euro é muito maior do que se pode imaginar.

Filosofia infernal


Conheci Hellboy pelo caminho natural: primeiro através das páginas de “O Verme Vencedor” de Mike Mignola e depois nos quadros registrados por Guilhermo del Toro. E confesso que me surpreendi positivamente nos dois casos.

A mitologia em torno do personagem é bem construída e, no meu entendimento, é filosofia pura. E explico o por quê. Se para um ser humano questionamentos como quem eu sou, de onde venho e para onde vou são motivos para grande perturbação, imagina para um ser todo vermelho que raspas os chifres da testa para ficar mais bonito e tem uma das mãos maior de que uma luva de boxe.


O garoto do inferno é um brutamonte, uma máquina de destruição, mas também é um cara sensível: gosta de gatos e se comporta como um adolescente quando está perto da namorada. Contraditório, mas honesto com seus sentimentos, ele tem a consciência que tem uma missão para cumprir, muito embora, às vezes, não saiba exatamente qual é essa missão.


Hellboy é infernal e, exatamente por isso, é profundamente humano.

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

A bela e o Gato


Num dos mais inspirados e divertidos diálogos de Ladrão de Casaca, rodado em 1955 por Alfred Hitchcock, o personagem John Robie, um famoso ex-ladrão de jóias fala para a mimada e milionária Frances Stevens que tudo o que ela precisa ele não tem tempo nem disposição para dar. Quando ela pergunta o que é Robie fuzila: “Duas semanas com um homem de verdade nas Cataratas do Niágara”.

Este humor ácido marca algumas das melhores produções do cineasta inglês, mas neste filme em particular, ganha o status de elemento cênico e é fundamental no desenvolvimento da trama. Não sem razão, o suspense por vezes é ofuscado pelos diálogos muito bem escrito e pela fina ironia dos personagens.


Na trama, John Robie, interpretado por Cary Grant, é um ladrão de jóias aposentado do ofício criminoso. Dono de uma técnica particular, Robie ficou conhecido como “O Gato”. Quinze anos depois de ter parado, uma série de assaltos relembra o estilo do Gato e Robie se torna o principal suspeito. Para se livrar da culpa Robie resolve criar um plano para pegar o ladrão.


Contando com a ajuda do H. H. Hughson, representante de uma seguradora de jóias cansada de indenizar seus clientes, Robie consegue uma lista de pessoas ricas que possuem jóias com a possibilidade de serem roubadas. Tentando prever os passos do novo gatuno, Robie monta uma armadilha que lhe garantirá a liberdade.


É através do contato com os milionários e suas cobiçadas jóias que Robie conhece Frances. A garota mimada, recém chegada da América, se mostra mais inteligente e audaciosa do que Robie supõe e já no primeiro encontro lhe tasca um beijo na boca. A partir daí o filme ganha um clima romântico e quase faz esquecer que estamos diante de uma obra hitchcokiniana. A química entre Grant e Kelly é tanta que transforma a seqüência em que ambos comem frango com as mãos num momento de romance explícito. Mérito do cineasta inglês que mais uma vez comprova ser um dos melhores diretores de atores do cinema mundial.


Hitchcock recheia o filme com muitas de suas preferências como a Riviera Francesa, a música pontuando as cenas, as perseguições de carros em alta velocidade, o clímax surpreendente e o prazer de trabalhar com dois dos melhores atores da época. O casal de protagonista, por sua vez, está perfeito. Cary Grant esbanja charme, elegância e simpatia no papel do Gato e Grace Kelly, arrebatadoramente bela, fornece todos os elementos necessários para tornar sua personagem arrogante, mimada e mesmo assim absolutamente desejável.


Apesar do desfecho um pouco óbvio demais Ladrão de Casaca é um excelente filme. Afinal de contas, não se podia esperar algo muito diferente do encontro entre Hitchkcok, Cary Grant e Grace Kelly.