sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Uma escolha normal

Os normais 2 é um filme engraçado, mesmo que o desempenho da dupla Fernanda Torres e Luis Fernando Guimarães não esteja tão afinado quanto à época do seriado televisivo. Os diálogos articulados e rápidos, abordando aspectos sexuais na maioria do tempo, e o humor físico que varia da sutileza a escatologia total, duas características que marcaram o programa, estão lá em sua totalidade.

Na tentativa de apimentar um pouco a vida sexual do casal, Vani propõe a Rui um ménage-a-trois. A procura pela parceira ideal e as confusões em que eles se metem na busca de um prazer desconhecido rendem as melhores piadas do filme.

O problema da produção é sua absoluta falta de identidade. Enquanto o seriado original, exibido entre 2001 e 2003, tinha sua estrutura e seus esquetes inspirados na TV Pirata, programa anárquico que reformulou e injetou originalidade no humorismo brasileiro no final dos anos 80, os filmes, tanto o primeiro quanto essa continuação, não tem uma estética definida.

Para piorar, o diretor José Alvarenga Jr. não faz nenhuma questão em escapar da cartilha da “moderna comédia romântica”. Bebendo na mesma fonte de filmes como a trilogia adolescente American Pie, Alvarenga se rende ao final triste e redentor para provar que o amor vence tudo. Se o objetivo era apenas lotar as salas os cinemas, essa é foi uma escolha pra lá de normal.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Matadores


Da esquerda para a direita Wade Garrett e James Dalton, ou melhor, Sam Elliot e Patrick Swayse, numa cena de Matador de Aluguel. Um grande pequeno filme desses que as vezes surgem nas telas do cinema e uma justa recordação do eterno Ghost.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Explicações desnecessárias

A tentativa de explicar algo que ninguém tinha o menor interesse em saber tornou Highlander II – A ressurreição um dos filmes mais bizonhos e constrangedores dos últimos 20 anos. Ninguém estava interessado nas origens de Connor MacLeod ou o porquê dele ser imortal, o que queríamos era vê-lo cortando mais e mais cabeças.

O diretor Doug Liman, ao que parece, não assistiu a continuação da aventura do guerreiro imortal e, se assistiu, não aprendeu nada. Seu último filme, Jumper, peca exatamente pelo mesmo motivo: se propor a explicar algo que não interessa a ninguém.

Os jumpers são mutantes que tem o poder de se tele transportar. Ir instantaneamente de Paris a Tóquio ou do alto da esfinge para ao Big Ben faz parte da rotina deles.

Enquanto o filme se limita a mostrar as aventuras desses saltadores do espaço e do grupo que os caça, tudo vai bem. A ação quase ininterrupta é recheada de efeitos especiais bacanas. Quando as explicações sobre a origem da organização dos caçadores, chamados “paladinos”, começam é que a mistura desanda. Com referências a Idade Média e a dogmas religiosos as explicações não convencem e o roteiro deixa mais pontos soltos do que amarrados.

Com uma premissa bastante interessante e um diretor arrojado e inovador, Jumper podia ser muito melhor e mais divertido. Mas a inventividade do filme, assim como seu personagem título, parece desaparecer de uma hora para outra, sem deixar vestígios.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Em busca da terra perdida

Volta e meia surge nas telas de cinema um personagem chato, excêntrico e mal humorado que, mesmo com toda a rabugice que lhe é peculiar, consegue encantar a todos. O sarcástico escritor Melvin Udall, interpretado por Jack Nicholson em Melhor é impossível ou o irritante tenente-coronel Frank Slade, papel de Al Pacino em Perfume de mulher, são apenas dois exemplos desses personagens que as pessoas amam odiar.

No mundo dos pixels, o topo do ranking dos chatos de bom coração vai com todos os louros e glórias para Carl Fredricksen, personagem principal do filme Up – Altas Aventuras dos estúdios Pixar.

Aos 78 anos Fredricksen resolve realizar o sonho que alimentou durante toda a vida: viver uma grande aventura. Para isso ele amarra milhares de balões em sua casa e sai voando rumo a América do Sul para encontrar o mítico “Paraíso das Cachoeiras”. Na sua jornada o rabugento senhor vai ter que aprender a conviver com o atrapalhado garoto Russell, o divertido cachorro Dug e a simpática ave Kevin.

O relacionamento entre os membros desse improvável quarteto é o grande barato do filme e donde surgem também as já tradicionais lições de vida típicas das produções de animação recente. Em busca da terra perdida cada um dos aventureiros vai acabar encontrando a si mesmo.

As cores e texturas do filme enchem os olhos e são um espetáculo a parte. Além disso, essa é a primeira animação, que eu me lembre, que aborda a questão da morte de maneira objetiva. Como percebe Fredricksen logo nos primeiros minutos do filme, por mais doloroso que seja, a morte faz parte da vida.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

No limbo

The Sprit – O filme tinha qualidades de sobra para ser uma grande produção: roteiro baseado nas histórias de um mestre dos quadrinhos, protagonista charmoso, descolado e debochado, vilão lunático, megalomaníaco e nazista e um elenco feminino de tirar o fôlego. Dessas potencialidades, porém, apenas a última não é totalmente caricatural ou ridícula.

Scarlett Johansson, como a assistente do vilão, Paz Vega, no papel da dançarina assassina Plaster de Paris, Sarah Paulson como a médica Ellen Dolan e Eva Mendes no papel de Sand Saref, antiga paixão de Spirit, simplesmente roubam a cena todas as vezes em que aparecem.

Resta a Gabriel Macht, como Spirit e Samuel L. Jackson, como o louco Octopus, algumas boas tiradas e alguns socos bem coreografados. Ao tentar inovar no visual, o diretor Frank Miller não surpreendeu. Suas imagens ficam numa espécie de limbo entre Sin City e 300, curiosamente dois filmes baseados em histórias em quadrinhos do próprio Miller.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Brincadeira de criança

G.I. Joe – A origem de Cobra é aquele tipo de filme que insiste em colocar o futuro do cinema em cheque. Ao mesmo tempo em que é tecnicamente brilhante, é também de uma superficialidade grotesca.

Todas as seqüências de ação, em especial a queda da Torre Eiffel, são visualmente arrebatadoras, porém, os personagens embaixo dos uniformes em nenhum momento conseguem se humanizar ou exprimir qualquer tipo de sentimento. Parodiando o Capitão Nascimento e sua tropa de elite, para os Joes missão dada é missão cumprida. E nada mais.

Os flashbacks que mostram a rivalidade entre os irmãos ninjas ou o fim do romance que tinha tudo para ser um conto de fadas, só reforçam a fragilidade com que as personagens foram construídas. A produção do filme certamente levou mais tempo criando a aerodinâmica dos aviões do que dando razões e motivações aos seus heróis.

Em alguns momentos, como a seqüência em que no meio do deserto um buraco se abre e revela uma base secreta, minha infância voltou com força total – quando eu era criança meus Comandos em Ação também enfrentavam aventuras fantásticas.

G.I. Joe é intenso, magnético e emocionante como as brincadeiras infantis e, assim como elas, desaparece por completo quando se acende a luz.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Sexo é escolha, amor é sorte

A primeira noite de um homem é, em essência, um filme sobre sexo e amor e, consequentemente, sobre os benefícios e misérias que trazem às vidas das pessoas.

Recém-formado na faculdade e sem a menor perspectiva do que vai fazer no futuro, o jovem Benjamin Braddock (Dustin Hoffman) passa os dias pegando sol na piscina da casa de seus pais. A espera que alguma coisa aconteça em sua vida acaba quando Ben se rende aos encantos da sedutora Sra. Robinson (Anne Bancroft), uma amiga de longa data de seus pais.

A relação entre Ben e a Sra. Robinson, baseada no desejo carnal, acaba se tornando o moto contínuo da vida do inusitado casal. Esperar o dia anoitecer para se entregar a luxúria se torna o objetivo de vida dos dois que vêem no sexo uma válvula de escape de uma vida repleta de banidalidades.

Esse cotidiano lascivo vai ter fim somente quando Benjamin descobre algo superior ao sexo: o amor. Essa descoberta, porém, se dá com a mais improvável das garotas, a filha da fogosa Sra. Robinson.

Num clima de comédia pastelão Mike Nichols cria uma fábula atemporal que assim como uma conhecida música da Rita Lee, prova que sexo pode ser questão de escolha, mas amor com certeza é questão de sorte.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Fantasmas desenterrados

Livrar-se do charme e da licença para matar de 007 foi algo extraordinário para Pierce Brosnan. Se a franquia do mais conhecido agente secreto do cinema fez bem ao bolso do ator, não beneficiou em nada suas habilidades dramáticas. Despojado do smoking de James Bond, ele pôde mergulhar em papéis mais consistentes e, porque não dizer, mais profundos.

Em À procura de vingança Brosnan é Gideon um ex-combatente da Guerra Civil americana que foge desesperadamente do Coronel Carver, personagem de Liam Nesson. Este westner à moda clássica inova ao substituir planícies desertas e amareladas por montanhas brancas cobertas de neve.

Não fosse o infeliz título brasileiro, até o final do filme é impossível perceber quem está do lado certo, ou melhor, quem está menos errado dos dois. O duelo derradeiro faz com que ambos desenterrem seus fantasmas e, ao encarar seus piores demônios, encontrem um caminho de paz.

Mesmo aparecendo apenas nos minutos finais Anjelica Huston, como Madame Louise, empresta beleza e simpatia a um gênero cinematográfico dominado por homens rudes e malvados. Anjelica, como certos westners, parece ficar cada vez melhor com a passagem do tempo.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Um anti-herói bacana, mas não dessa vez

Em Adrenalina 2: Alta voltagem, segunda aventura de Chev Chelios (Jason Statham), o matador de aluguel persegue uma gangue que roubou seu coração e, no lugar, instalou uma espécie de coração artificial. Como o equipamento funciona com bateria, Chelios volta e meia precisa de uma carga, donde surgem os momentos mais engraçados do filme.

Grudar um carregador de bateria automotiva na língua, levar choque de policiais ou esfregar-se sexualmente nas pessoas são algumas das alternativas que Chelios encontra para manter seu coração batendo. Assim como no primeiro filme, a cena de sexo entre o matador e sua namorada Eve (Amy Smart) é divertidíssima e, digamos, reanima o matador a continuar sua busca.

Porém, ao tentar fazer um filme pop e descolado, os diretores Mark Neveldine e Brian Taylor passaram da conta e erraram a mão. Misturando um roteiro cheio de ligações com o primeiro filme, que mais confunde do que esclarece e situações ainda mais bizarras e inverossímeis, Chelios acaba se tornando apenas uma caricatura do anti-herói bacana do primeiro filme.

Destaque para a participação meteórica de David Carradine que, confesso, só fui descobrir o papel ao consultar o IMDB.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Autoridade e disciplina

Que a saga de Harry Potter flerta com a filosofia clássica não é nenhuma novidade. Um livro inteiro dedicado a esse assunto foi lançado pela editora Madras há não muito tempo. A questão moral e ética do indivíduo, o bem contra o mal, o apego aos valores e virtudes, o inegoísmo como a única alternativa para evolução humana e tantos outros temas já foram abordados por J. K. Rowling, com maior ou menor intensidade, nos sete livros da série. Coube a cada um dos cineastas responsáveis pelas adaptações cinematográficas selecionar as abordagens que julgavam fundamentais para transformar em imagens as palavras da escritora.

Em Harry Potter e o Enigma do Príncipe, sexto filme da franquia do bruxo teen, o diretor David Yates privilegia ao longo dos 153 minutos de duração dois temas principais que, não por acaso, perfazem os elementos motivadores das personagens centrais e influenciam diretamente as decisões por elas tomadas: a autoridade e a disciplina.

No filme, a autoridade se manifesta em suas duas formas tradicionais: a teórica e a prática. O exemplo de autoridade prática cabe ao Professor Severo Snape. A autoridade de Snape frente aos alunos se manifesta de forma prática, ou seja, eles temem o professor muito mais em razão da sua posição, da sua possibilidade de puni-los, do que efetivamente por seu conhecimento. O antagonismo entre Harry e Severo Snape advém, principalmente, desse questionamento. É claro que Snape tem as qualidades e o intelecto necessário para ser um dos mais principais professores de Hogwarts, mas sua forma de agir o faz ser reconhecido como alguém a ser temido e não como alguém a ser respeitado.

O diretor Alvo Dumbledore, por sua vez, é a expressão singular da autoridade teórica. A autoridade teórica é exercida por aqueles que detêm o conhecimento e, principalmente, sabem manifestar seu saber e transmiti-lo aos demais. Dumbledore se encaixa com precisão no papel do mestre, do sábio. Suas ações primam pela nobreza e, mesmo quando em certo momento do filme ele diz à Harry que mais uma vez precisará exigir muito dele, sua autoridade é manifestada pela sabedoria e experiência, e não pela força ou imposição. Como Sócrates quando disse que só sabia que nada sabia, Dumbledore também conhece suas limitações e fraquezas, e é justamente essa consciência que o torna superior aos demais.

A disciplina, no entendimento mais profundo do termo, está presente em grande parte dos aprendizes de bruxos de Hogwarts. Cada um dos estudantes busca se disciplinar para aprender mais e evoluir como bruxo. Mas as três características que fazem de um aluno um discípulo, devoção, investigação e serviço, estão presentes em Harry Potter mais do que em qualquer outro.

Harry é devotado integralmente ao seu mestre, no caso Alvo Dumbledore. As palavras do sábio têm força de lei para Potter que, em determinada seqüência do filme, obedecendo ao que Dumbledore lhe ordenara, acaba impingindo-lhe dores terríveis. Acreditar no mestre é fundamental para o discípulo, custe o que custar, doa a quem doer. A investigação aparece em muitos momentos do filme como quando Harry espiona Draco no vagão do trem ou quando ele tenta descobrir o segredo que guarda o professor Horácio Slughorn. E o serviço se manifesta justamente nas ações de Potter ao seguir a sabedoria e os conselhos do mestre. Harry experencia sentimentos nobres e sombrios, ambos necessários para que ele cumpra sua difícil missão.

Harry Potter e o Enigma do Príncipe é, de fato, o início do fim da história do bruxo mais famoso do mundo. Que as relíquias da morte não tardem a ganhar as telas grandes.

Muito pouco

Quando os filmes de Ridley Scot não fazem sucesso junto ao público, junto à crítica, ou junto a ambos, só resta ao cineasta culpar uma pessoa: ele mesmo. Afinal de contas, espera-se que alguém que antecipou o futuro com Blade Runner e resgatou a história com Gladiador supere-se a cada filme. Infelizmente isso não acontece.

Rede de Mentiras é um desses casos. O filme é ágil, bem dirigido e ainda melhor editado. O roteiro é bom e as personagens expressam alguma profundidade dramática, mérito mais dos coadjuvantes do que dos atores principais.

No filme Leonardo DiCaprio é um espião de campo que atua no oriente médio enquanto Russel Crowe é um agente que trabalha no quartel-general da CIA. A relação conflituosa entre os dois e os pontos de vistas antagônicos das personagens centrais é que dão tom ao filme. Crowe é a América clássica e DiCaprio o país que tenta se adaptar aos novos tempos. Enquanto um quer evitar mortes desnecessárias, o outro acredita que para os objetivos serem alcançados, não importa o número de perdas.

O diretor tinha em mãos um argumento para fazer um filme político, mas se restringiu a fazer um agitado filme de ação. Muito pouco para Scott.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Universo sombrio

Philip K. Dick está para os escritores de ficção científica assim como Blade Runner está para o cinema deste mesmo gênero. Não é a toa que o clássico dirigido por Ridley Scott e protagonizado por Harrison Ford seja adaptado de um dos livros de Dick.

Além da fábula do caçador de andróides, outras produções como Minority Report , O Vingador de Futuro e O pagamento também são inspiradas em obras lançadas pelo escritor.

Em O homem duplo, título obtuso de A Scanner Darkly, Dick aborda um tema muito particular em sua vida e na de muitos de seus conhecidos: o uso de drogas. A trama gira em torno de um agente de uma organização governamental que se infiltra num grupo de usuários para conhecer seus hábitos.

A adaptação cinematográfica dirigida por Richard Linklater, do já clássico Antes do Amanhecer, mergulha de cabeça nesse sombrio universo das drogas e dos dependentes químicos.

Embora o filme tenha sido mais discutido em função da textura de suas imagens, que parecem um desenho animado feito com pincel e tinta, Linklater fez um grande pequeno filme, com questionamentos morais e éticos que, embora não cheguem a uma conclusão, valem pela especulação.

Keanu Reeves, Woody Harrelson, Winona Ryder e Robert Downey Jr. compõe o elenco principal. Os dois últimos, não por acaso, vítimas do efeito nocivo das drogas em suas vidas.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Aceitação

Muito se alardeou que John Rambo, o quarto filme da série protagonizado por Sylvester Stallone, era a redenção do personagem e do diretor-ator. Papo furado.

Na quarta aventura do ex-combatente do Vietnam, Rambo está vivendo na Tailândia e divide seu tempo entre caçar cobras e transportar pessoas numa embarcação caindo aos pedaços. Na Birmânia, país vizinho a Tailândia, uma das mais violentas guerras civis da história mundial já se perpetua há quase 60 anos. Quando Rambo aceita transportar um grupo de missionários que desejam levar alimentos e remédios para os refugiados é que a ação tem início.

Como o grupo não retorna na data prevista, o líder da congregação pede a Rambo que leve um grupo de mercenários ao local onde deixou os missionários na tentativa de resgatá-lo.

Rambo, antes de assumir a contragosto o comando do pelotão de resgate, trava a mais sombria das batalhas que já enfrentou, contra ele mesmo. O anti-herói compreende que ele nada mais é do que uma máquina de guerra com vontade de matar. Em algum momento do filme Rambo diz que ele não matou por seu país ou por Deus, ele matou por ele mesmo. Quando se descobre a sua vocação, fica muito mais fácil fazer o que é preciso ser feito.

Stallone demorou quase 20 anos para produzir este que deve ser o último capítulo da série e acertou ao manter-se fiel ao personagem. As cenas de ação são colagens de cabeças destruídas, membros arrancados e corpos dilacerados – e esses são os grandes momentos do filme. Assim como Rambo entende sua missão, Stallone também compreende que seu papel na indústria cinematográfico é produzir filmes em que a ação explícita substitua a necessidade de algum elemento dramático.

O filme não é a redenção de Rambo e Stallone e sim a aceitação de quem eles de fato são. E isso já é uma grande coisa.

terça-feira, 21 de julho de 2009

Convicção trágica

Logo nas primeiras linhas de Crônica de uma morte anunciada o escritor Gabriel Garcia Marques conta que Santiago Nasar, personagem central da trama, vai morrer. Não se criam expectativas, suposições ou divagações – a morte é certa, inevitável e inescapável.

Essa certeza da morte iminente também acompanha o expectador de Operação Valquíria. Mas, mais do que no expectador, essa convicção trágica está presente em todas as personagens centrais do filme, a começar pelo coronel Claus von Stauffenberg, papel de Tom Cruise.

Stauffenberg, lidera um grupo de militares do alto escalão do exército alemão num audacioso plano para matar Hitler. A II Guerra Mundial está acabando e os militares traidores acreditam que, com Hitler fora da jogada, a redenção da Alemanha possa ser negociada mais pacificamente e, dessa forma, a Europa inteira não seja destruída pelos confrontos.

Mas qual é a graça de ver um filme sabendo o final? Essa pergunta o diretor Bryan Singer responde com competência. O filme é um suspense do início ao fim, principalmente quando o atentado é executado e os militares renegados não tem certeza da morte do líder nazista. A edição rápida que Singer emprega ao filme faz que, mesmo o expectador que já conhece o fim da história, passe a questionar se Hitler está morto ou vivo.

Kenneth Branagh, Tom Wilkinson e Terence Stamp dão o suporte necessário para que o astro de Top Gun seja o centro das atenções. Numa atuação contida, Cruise faz jus a figura emblemática e idealista do coronel Stauffenberg, um militar que provou que nem todos os soldados alemães eram nazista.

terça-feira, 7 de julho de 2009

Vaginas fascistas

Marion é uma fotógrafa francesa que tem um grave problema de visão. Jack é um norte-americano hipocondríaco e decorador de interiores. Passeando dois dias em Paris esse inusitado casal vai descobrir as misérias e grandezas de um estranho sentimento chamado amor.

Se Jack fosse um cineasta, seria Woddy Allen em seus momentos mais neuróticos. Marion, por sua vez, seria ainda mais extravagante que Baz Luhrmann. Se o norte-americano fosse um jogo, seria algo como xadrez. A francesa, frenética e impulsiva, seria hóquei sobre o gelo. Se o decorador fosse uma cidade, seria Nova Iorque. A fotografa, Paris.

Essa mistura de estilos, gostos, atitudes, personalidades e influências culturais que se retro-alimentam diretamente, faz de 2 Dias em Paris uma comédia que, além do humor óbvio do gênero, ainda apresenta uma reflexão sobre um mundo em que a redução das distâncias geográficas implica diretamente no distanciamento humano entre as pessoas.

Escrito e dirigido por Julie Delpy, o filme retrata esses dois dias que o casal, em uma turnê pela Europa, passa em Paris antes de seguir viagem para os Estados Unidos. Delpy interpreta a fotógrafa Marion e Adam Goldberg personifica com competência o inseguro e desajeitado Jack. A relação de Jack com os sogros e a cunhada e as conversas dele com os amigos franceses de Marion rendem alguns dos momentos mais engraçados da produção.

Numa dessas conversas, um dos amigos da fotógrafa fala para Jack que detesta tanto um determinado estilo de depilação feminina que quando a vê associa imediatamente ao bigode característico de Adolf Hitler. Quando Marion chega e pergunta sobre o que os dois estão conversando, Jack responde com uma objetividade desconcertante: sobre vaginas fascistas.

Apesar de algumas cenas desnecessárias como a aparição da fada, 2 Dias em Paris diverte bastante em seus pouco mais de 90 minutos de duração. E, afinal de contas, o que se pode querer mais?

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Herói, rabugento e racista

Walt Kowalski é um ex-combatente da Guerra da Coréia que não tinha pena em matar seus inimigos. Hoje, depois de uma vida inteira trabalhando como montador de carros, é um aposentado rabugento, racista e mau humorado. Seu passatempo preferido é cuidar do seu Ford Gran Torino 1972 e praguejar contra seus vizinhos imigrantes e contra os jovens desocupados. Mesmo com todas essas características o velho Kowalski é o herói de Gran Torino.

Ao olhar em volta e perceber a decadência da América, Kowalski olha no fundo para dentro de si mesmo. Enquanto a vizinhança do seu bairro está repleta de imigrantes e gangues, a própria vida do aposentado não está melhor. Com a morte da esposa, Walt se vê perdido num mundo que conhece cada vez menos. Sua relação com os filhos é monossilábica e com os netos simplesmente não existe.

Quando o aposentado percebe que tem mais em comum com alguns dos vizinhos orientais do que com a própria família é sinal claro que as coisas não vão bem. Tentanto ajudar seus vizinhos, Walt só consegue prejudicá-los mais. E, à maneira clássica do herói americano, Kowalski vai resolver tudo, custe o que custar, doa a quem doer.

Clint Eastwood protagoniza e dirige Gran Torino de forma simples, direta e eficiente. O filme mostra que, mesmo em casa, podemos nos sentir completos estrangeiros. Ao apontar suas lentes diretamente para as idiossincrasias particulares do ser humano, Eastwood consegue ser por demais universal.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

A la Hitchcock

A comparação entre Dario Argento e Alfred Hitchcock é inevitável, assim como é inevitável a constatação de que os dois são designers da imagem.

Cada plano, cada seqüência, cada cena dos filmes dos dois cineastas é pensada com antecedência, nada ocorre por acaso. A disposição dos objetos em cena, o jogo de luzes, as cores, sombras e tudo o mais é calculado para causar o efeito desejado: assustar o expectador.

Em Prelúdio para matar, título brasileiro infeliz de Profondo Rosso, Argento conta a história de um pianista que presencia um assassinato e, ao lado de uma tresloucada jornalista, vai investigar o crime por conta própria.

A decupagem das cenas é brilhante na falta de um adjetivo melhor. A câmera realmente desliza como disse o Evandro em seu blog. Argento usa com precisão um recurso que às vezes é negligenciado pelos diretores de cinema: o cenário. Cada locação, cada quarto, cada ambiente representa alguma coisa. A mansão abandonada, a casa de campo, o apartamento moderno e as ruas vazias e escuras representam um pouco a personalidade das suas personagens.

Com as óperas italianas Profondo Rosso tem duas semelhanças: possui altos e baixos e, após o fim, é difícil tirá-lo da cabeça.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Da inevitabilidade do destino

O policial John McClane ficou famoso por ser a pessoa certa no lugar errado. Os filmes da série Duro de Matar, protagonizados por Bruce Willis, em especial o primeiro dos quatro, giram exatamente em torno desse mote.

De certa maneira é isso também que acaba ocorrendo com o simpático urso Po, só que ao contrário: ele é a pessoa errada no lugar certo. Falar da excelência gráfica de Kung Fu Panda ou do moralismo disfarçado de mensagem edificando presente na maioria das animações americanas é chover no molhado. Mas essa produção apresenta algo diferente, ela flerta com a inevitabilidade do destino.

Além da evidente transformação do protagonista, que de um simples cozinheiro se torna um lendário guerreiro, a fuga da prisão do vilão só acontece por um motivo simples, porque tinha que acontecer. Mas isso não se trata de previsão ou adivinhação, a fuga só ocorre com a chegada do mensageiro que justamente tinha a missão de solicitar um reforço à guarda do bandido prisioneiro. Provando que uma ação impossível só se torna possível no momento em que se faz tudo para impedi-la.

Além do treinamento do Panda no melhor estilo Rocky Balboa, em Kung Fu Panda, pela primeira vez desde Forrest Gump, uma pena tem importância decisiva nos acontecimentos. Filme bacana.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

A dose exata

Moça com brinco de pérola conta de que forma uma jovem camponesa analfabeta teria sido a inspiração do pintor Johannes Vermeer na criação de um de seus mais famosos quadros.

Scarlett Johansson é Griet, a moça que abandona a família para trabalhar como ajudante doméstica na casa do pintor Vermeer, papel este que cabe a Colin Firth. O diretor Peter Webber consegue encontrar a dose exata dos dois, ou seja, muita Scarlett e pouco Firth.

Da mesma forma que o excêntrico pintor vai misturando matizes até chegar ao tom perfeito, Webber constrói uma fábula que prende pela beleza das cenas e pela força das suas personagens. E mais um ponto para o diretor: deixar Scarlett Johansson com cara de empregadinha mal tratada não deve ter sido tarefa fácil.

Um Cão Andaluz numa quarta-feira

Uma das mais divertidas histórias que cercam Um Cão Andaluz é a de que, no dia da primeira exibição do filme para uma platéia de intelectuais, Luis Buñel teria levado nos bolsos da calça algumas pedras para revidar um possível ataque da platéia.

Naquela ocasião as pedras não precisaram sair do bolso de Buñel, mas o filme provocou reações indignadas em muitos locais em que foi exibido.

O grande barato da produção de 17 minutos, talvez os 17 minutos mais discutidos do cinema mundial, é que a lógica do filme é exatamente não ter lógica nenhuma. As cenas que vão se sucedendo não apresentam linearidade de tempo, personagens ou cenários, mesmo porque essa era a intenção.

Uma descrição possível para o filme é que ele é composto por um punhado de sonhos filmados, descrição essa do próprio Buñel. Tenho pra mim que não. Acho que é o contrário. O filme não é formado por sonhos, os sonhos é que são formados por pequenos filmes. Se você achou esse comentário surreal, vá assistir ao filme. Mesmo que seja numa quarta-feira.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Façam suas apostas



E a disputa para o título de melhor Robin Hood já começou. De um lado Kevin Costner do outro Russel Crowe.

Sei não, mas nessas fotos Costner parece que pegou a roupa emprestada de um clipe do Queen dos anos 80 e Crowe parece estar usando sobras do figurino de Gladiador.

terça-feira, 12 de maio de 2009

Quando saber de nada vale

Presságio apresenta um dilema interessante: de que adianta saber, ter conhecimento que algo terrível está prestes a acontecer se não há como evita-lo?

Nicholas Cage é um cientista que descobre um manuscrito enterrado há meio século. Ao analisar a seqüência dos números escritos no papel, ele descobre as datas das principais tragédias ocorridas nos últimos cinqüenta anos assim como o número de mortos de cada uma.

Mas no manuscrito ainda faltam três eventos que não ocorreram. Dois deles o cientista sabe quando e onde vão ocorrer e mesmo assim não consegue evitar. Quando ele por fim entende o que representa o último registro só resta esperar. É nesse momento em que o filme de fato ganha algum significado. No momento em que nada mais resta a fazer, o conforto e o carinho da família ainda são as coisas que mais importam.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Bigas modernas

Corrida Mortal é pueril como uma volta em alta velocidade por uma pista oval – poucos segundos após o fim já não se recorda de mais nada.

A produção que tem Jason Statham e Joan Allen como protagonistas, porém, tem cá e lá algumas virtudes. Entre elas está um punhado de cenas de ação muito bem arquitetadas. Os pegas são bacanas e os acidentes melhores ainda.

Outro ponto positivo do filme é colocar Statham num papel que passa longe dos sopapos que são sua marca registrada. É claro que vez por outra alguém acaba com um osso quebrado ou um dente arrancado, mas Statham se concentra em parecer um ex-piloto de carros preso injustamente e que encontra nas corridas uma forma de sair da cadeia e encontrar sua filha.

O filme vale por tornar crível que um esporte praticado por detentos, dentro de um presídio de segurança máxima, transmitido ao vivo para o mundo inteiro por mais de cem câmeras possa entreter tanto quanto uma copa do mundo. Ver homens que não tem nada a perder lutando em bigas modernas por sua liberdade nos remete à Roma antiga, na qual os gladiadores já entretinham as pessoas matando, morrendo ou, na maioria das vezes, fazendo as duas coisas.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Humano, demasiado humano

A busca pelo significado de ser o que se é, pelo sentido da existência é o que move o personagem título de Wall-E. Sozinho no planeta Terra com a missão de compactar o lixo deixado pelos seres humanos, que se encontram numa espécie de “cruzeiro interplanetário” pelo universo, o robô procura uma razão de ser.

E ele vai encontrar essa razão justamente em algo que não lhe é nem um pouco familiar: a humanidade como essência. É colecionando objetos jogados no lixo pelos antigos habitantes do planeta que Wall-E vai formando seu conceito do que é ser humano. Da fascinação infantil por um cubo mágico, passando pela necessidade utilitária de uma colher até chegar ao prazer puro e simples de estourar as bolhas de um plástico-bolha, a máquina reproduz sensações primárias e básicas que dão sentido a vida.

A descoberta, a admiração, o espanto, a curiosidade e a busca por respostas são algumas das características que fazem o robô ser quem é e, não sem motivo, são as mesmas inquietações dos filósofos de todos os tempos.

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Família é família, sangue é sangue. Será?


Woody Allen tem uma obsessão: provocar desconforto no seu espectador. Mesmo nas suas comédias mais rasgadas o cineasta faz questão de ressaltar a inviabilidade do ser humano. O sonho de Cassandra é um bom exemplo disso.

Numa típica família suburbana londrina, dois irmãos, de bom caráter, mas em situação difícil, pedem ajuda financeira ao tio rico da família. O tio, a princípio, se dispõe a ajudar, mas ele também pede um favor aos sobrinhos, afinal, família é família e todos precisam se ajudar.

O favor pedido pelo tio, porém, é muito maior do que qualquer coisa que os dois irmãos poderiam imaginar. Não pela dificuldade da tarefa, mas porque para o seu cumprimento eles terão que passar por cima de todos os seus limites éticos e, principalmente, de todos os seus medos.

Mas é somente com o pedido atendido que as coisas realmente se complicam. O irmão, digamos, mais intelectualmente limitado se arrepende do que fez e a partir daí cabe a todos os envolvidos na trama provar até que ponto sangue é sangue e negócio é negócio.

Colin Farrell interpreta o irmão arrependido. Sempre com um cigarro no canto da boca e a expressão recorrente de angústia ele é instabilidade em estado puro. O irmão inteligente e, por isso mesmo, frio e calculista é interpretado por Ewan Mcgregor, sem maneirismo e forma bastante intensa também.

Alie à boa interpretação dos atores principais uma música caótica e desesperadora e um roteiro que em momento algum perde o seu compasso rumo à tragédia e o resultado é um grande filme que passou praticamente despercebido pelo público.

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Inimigo m(eu)


Guy Ritchie é um apaixonado pela violência do submundo. A ele não interessa o gângster de terno e gravata, o mafioso que se esconde atrás de óculos Ray-Ban e ternos Armani. Ritchie prefere voltar suas lentes para os criminosos comuns, aqueles que têm que sujar as mãos de sangue e, na maioria das vezes, acabar atrás das grades.

No filme Revolver, Jake Green é um desses bandidos do baixo clero que teve que amargar sete anos de prisão. Ao sair da cadeia, Jake está disposto a acertar as contas com o homem que o colocou lá, seu antigo chefe. Porém, uma série de reviravoltas, típica dos filmes do diretor inglês, o leva a um caminho jamais por ele imaginado. O filme se perde um pouco quando a ação característica das produções de Ritchie cede espaço para divagações filosóficas duras de engolir. As frases existenciais que aparecem vez por outra são bacanas, mas a cena do elevador na qual Jason Stathan encontra o seu verdadeiro eu é pra lá de xarope.

Ao misturar num mesmo roteiro filosofia oriental, reviravoltas rocambolescas, xadrez e um vilão que fica quase o tempo todo de cueca Guy Ritchie tentou fazer de Revolver um filme divertido e culto. Só conseguiu metade da empreitada.

terça-feira, 10 de março de 2009

Clássico

A Delorean voadora da trilogia De volta para o futuro.
Clássico é clássico, não se discute.

O entardecer de um campeão

A multidão o amava. Sua legião de admiradores era infinita. Suas vitórias comemoradas como conquistas. Sua imagem se tornou ícone e foi parar nas telas de vídeo-game. Seu nome estampava as capas dos jornais. Randy “O Carneiro” Robinson era o máximo – isso há vinte anos atrás.

Hoje Randy não é nem mais sombra do astro das lutas livres que encantava a todos no passado. Cansado, velho e desiludido, Randy ganha a vida trabalhando num supermercado medíocre e fazendo apresentações de luta mais medíocres ainda em troca de um punhado de dólares.

O Lutador, protagonizado por um quase irreconhecível Mickey Rourke, começa assim, mostrando o apogeu e a decadência de um grande ídolo do passado. O filme se propõe a acompanhar o entardecer deste campeão e sua busca por um pouco de absolvição. O destino foi cruel com o Carneiro, mas ele foi o responsável por tudo de ruim que lhe aconteceu. A filha o odeia e a mulher de quem ele gosta, uma prostituta de quinta categoria, lhe nega qualquer tipo de aproximação. O astro decadente tenta acertar suas contas com a vida, mas é evidente que saldo ficará negativo.

Com uma temática quase panfletária a produção tinha tudo para descambar para o dramalhão sentimental, mas a direção sem exageros de Darren Aronofsky não permite que isso aconteça.

O grande lutador do passado se sente morto por dentro sendo obrigado a trabalhar como um simples atendente de mercado. O problema de saúde que pode levá-lo a morte se ele por o pé novamente num ringue é visto pelo Carneiro não como o desfecho de uma história triste, mas como a redenção na saga de um campeão.

Marisa Tomei, no papel da prostituta Cassidy, mostra que ainda está com tudo em cima e Rourke dá dignidade, irreverência e inconseqüência a Randy, um homem que mesmo desafiando os mais violentos e destemidos lutadores, nunca soube como enfrentar o seu maior adversário: a própria vida.

sexta-feira, 6 de março de 2009

Promete

Se Budapeste - o filme, for tão bom quanto Budapeste - o livro, será a produção do ano do cinema brasieleiro. Com Chico Buarque aparecendo no trailer, mesmo que rapidamente, uma coisa é certa: a metalinguagem será um dos pontos altos do filme. É aguardar e confiar.

terça-feira, 3 de março de 2009

Todas as histórias são de amor

Após o término da projeção de Quem quer ser um milionário cheguei a uma conclusão, digamos, um pouco óbvia: todas as histórias são de amor.

É certo que o filme de Danny Boyle levanta assuntos instigantes como as condições subumanas de vida de grande parte da população mundial, a falta de perspectiva de uma, ou de muitas, gerações, a força do capitalismo selvagem que derruba o que se meter na sua frente, a intolerância religiosa injustificada ou a imprevisibilidade do destino, mas no fundo o filme é uma história de amor.

E seguindo a cartilha de Romeu e Julieta, que se tornou universal exatamente por sua demasiada simplicidade, Quem quer ser um milionário conta a história de Jamal Malik um indiano que, ainda criança, conhece Latika. É a impossibilidade do amor dos dois que faz Jamal procurar a vida inteira pela moça.

Sem saber como encontra-la, Jamal se inscreve num programa de televisão, estilo Show do Milhão, na esperança de que a Latika assista. Partindo dessa premissa o filme conta um pouco da história de vida do assistente de telemarketing que está prestes a ganhar o maior prêmio da TV mundial. E nessa história sentimentos como amor, amizade, raiva, ódio, desespero, esperança, frustração, felicidade e loucura acompanham Jamal até o momento da resposta decisiva que pode transformar o garoto favelado num jovem milionário.

Esqueça toda essa história de que o filme ganhou Oscar, de que é imperdível e coisa e tal e vá ao cinema assistir uma boa história que, além de imperdível, também ganhou o Oscar de melhor filme.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Holmes ou Chaplin?

Sei não, mas esse Sherlock Holmes ficou parecido demais com o Chaplin. Não ficou não?

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

007, 008, 009...


Adivinhe quem está faltando?

Brutalidade necessária

Pela estrada lamacenta e sem vida o andarilho segue solitário rumo ao nada. Caminhando a custo, é grande o peso que ele leva amarrado a uma corda. Deixando sua marca pela estrada, como se fosse uma espécie de assinatura, o volume é parte indissociável do homem que o carrega, impossível imaginar um sem o outro. O nome do homem é Django e o volume por ele puxado, um velho e pesado caixão de madeira.

Assim tem início um dos mais célebres filmes sobre o velho oeste americano e uma das produções referenciais do que se convencionou chamar de western spaghetti. Dirigido por Sergio Corbucci em 1966, Django conta a história do personagem-título e do que ele carrega dentro do misterioso caixão.

Todos os arquétipos do gênero estão presentes no filme: a mocinha, que não é santa mas é boa gente, o fazendeiro arrogante e sem coração, o amigo bandido mexicano, um monte de capanga dispostos a morrer e um herói rápido do gatilho. Franco Nero, com sua fisionomia dura, empresta a Django a brutalidade necessária que um pistoleiro precisa para viver num mundo onde leis não passam de um pedaço de papel sem utilidade.

A sequência em que Django, sozinho e atrás de um tronco de árvore, mata quase uma centena de capangas do fazendeiro rico é antológica e também é o momento no qual se revela o que está escondido dentro do caixão.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Porcos, diamantes e diversão


Da esquerda para direita: Mickey, Brick Top, Tommy, Turco e "Bullet Tooth" Tony - parte do elenco do divertido Snatch - Porcos e diamantes dirigido por Guy Ritchie.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Brucutu engraçado


É possível desrespeitar toda e qualquer lei da física, em especial a da gravidade, criar situações absurdas e completamente ilógicas, unir a isso tudo interpretações que beiram a histeria num fiapo de história e, mesmo assim, fazer um filme muito, mas muito divertido? Adrenalina é a prova que é possível sim.

Chev Chelios, um assassino profissional em vias de abandonar a profissão, descobre que foi envenenado por uma substância que provoca a desaceleração gradativa do coração, até o ponto em que ele pare de bater. Para se manter vivo, o matador arrependido tem que encontrar maneiras de aumentar o nível de adrenalina em sua corrente sanguínea e é essa busca desesperada a grande diversão do filme.

Cocaína, brigas de rua, natação, choques cardíacos e transar em praça pública são algumas das alternativas que Chelios utiliza para manter-se vivo e com o coração batendo. A seqüência de sexo no meio da rua, com todos olhando, é de rir até dizer chega, uma prova do talento de Jason Statham que além de saber dar as pancadas tradicionais de todo brucutu truculento, também é capaz de fazer graça.

O matador, com a certeza de que vai morrer, parte para uma vingança sangrenta contra aqueles que lhe envenenaram e, no meio do caminho, ainda encontra tempo para se despedir e dizer que ama a namorada.

Adrenalina é puro cinema-fantasia sem qualquer compromisso com a verossimilhança ou coisas do tipo. Tudo é improvável ou mesmo impossível. Talvez por isso mesmo seja um filme tão legal.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Sobre espaços e sentimentos vazios


Interiores, filme de Woody Allen lançado em 1978, retrata o fim de um casamento de muitos anos e as consequências naturalmente trágicas do término repentino de uma relação duradoura. O roteiro focaliza as atenções nas filhas do casal recém divorciado e de que forma cada uma delas lida com a situação. Diane Keaton, musa dos filmes de Allen, interpreta Renata, a irmã mais velha. Dividindo-se entre o sucesso como poetiza, o fracasso profissional do marido e a relação distante com a mãe, Renata sente-se deslocada em seu próprio mundo. Keaton se vale do drama e da confusão da personagem para deixar transparecer seu talento natural.

As outras irmãs, Flyn e Joey, interpretadas respectivamente por Kristin Griffith e Mary Beth Hurt, são tão ou mais confusas que Renata. Flyn, atriz de TV, sabe que não é levada a sério e Joey, a caçula, embora talentosa, não sabe o que fazer da vida. O trio central opta por fazer o silêncio sempre falar que as palavras – o que permeia o filme com um tom intimista. A ausência de trilha sonora e os cenários grandes e espaçosos refletem o desconforto e o desamparo dos personagens.

Os ambientes, porém, não são os únicos espaços vazios do filme. Os sentimentos também são. Apesar da boa vida, do dinheiro e da inteligência acima da média, o principal elo entre os personagens é a incapacidade de ser feliz. Incapacidade essa proveniente da forma como lidam com os sentimentos. Deixando-os escondidos sob uma capa artificial de intelectualidade ou empurrando-os para debaixo dos livros de filosofia que lotam as estantes, os personagens negligenciam seus sentimentos a todo instante. Allen usa uma metáfora visual clara para reforçar essa sensação: enquanto a mãe se preocupa com a decoração impecável dos cômodos, dos interiores de sua casa e da casa de suas filhas, o mundo a sua volta desaba. Sem saber como lidar com a vida real, se apega a ilusão de que a beleza estética de um vaso sofisticado pode ser um paliativo eficiente à falta de sentido da sua vida. Ilusão essa que o próprio filme faz questão de desfazer da maneira mais irremediável possível.

Utilizando todo o seu tradicional arsenal de neuroses com a religião, a felicidade, a fé, a finitude da vida e a certeza da morte, Woddy Allen compôs um filme que emociona por sua simplicidade e delicadeza. Algo incomum na produção cinematográfica recente.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Imagens imperfeitas, trêmulas e deslocadas como a vida


Filmes que me causam alguma estranheza são os meus favoritos. Não é corriqueiro, mas vez por outra tenho a sorte de me deparar com esse tipo de produção que acende uma espécie de faísca interna e ilumina lugares que insistem em permanecer sombrios.

Sete Vidas me causou uma profunda estranheza, mas confesso que não sei exatamente se gostei do filme ou não. A tentativa de reeditar a parceira entre Will Smith e Gabriele Muccino, que se transformou no sucesso de crítica e público chamado A procura da felicidade, ficou anos luz da primeira empreitada.

A procura da felicidade era um filme motivador, uma história de auto-ajuda filmada em 24 quadros por segundo. Sete Vidas é exatamente o contrário, é uma história de autodestruição. Já nos primeiros segundos do filme o personagem interpretado por Smith anuncia que vai se suicidar e, por alguma razão, o espectador desde já tem a certeza de que isso vai acontecer.

O que segue ao anúncio do suicídio é um embaralhado de sequências que mostram as tentativas do personagem de Smith em melhorar a vida de algumas pessoas aparentemente sem ligação umas com as outras. Misturando alguns flashbacks e momentos de alucinação, o filme vai aos poucos elucidando porque motivo o personagem quer tanto ajudar essas pessoas. A principal falha do roteiro é que isso acontece aos poucos mesmo. Demora muito para o espectador entender os motivos por trás do desejo desesperado do personagem de Smith em ajudar esses próximos tão distantes dele. Quando enfim o motivo é revelado, todos já sabem.

Muitas das qualidades do filme, porém, residem exatamente no fato de ele ser um pouco desagradável. O tema é sombrio, a abordagem é dura, o final é um dos mais depressivos da história recente do cinema e as imagens são imperfeitas, trêmulas e deslocadas como a vida do personagem principal.

A atuação de Smith também deixa a desejar. Seu personagem parece sempre carregar um peso maior do que sua força e o risinho forçado que não sai dos lábios do astro também em nada colabora para melhorar seu desempenho.

Gabriele Muccino, por sua vez, quis fazer algo extremamente diferente do seu primeiro encontro com Smith e conseguiu, mas não deveria. A segurança e a cumplicidade entre diretor e ator na primeira parceira virou uma obsessão em fazer uma obra densa e profunda.

Uma das melhores sequencias acontece quando Smith leva o cachorro da personagem de Rosario Dawson para passear e mal consegue segura-lo pela coleira. Algo bastante curioso que num drama o destaque fique por conta de uma cena de comédia pastelão.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Cinema autêntico


Se não me engano foi Carlos Manga que numa entrevista, ao falar de Frederico Fellini, afirmou: “Fellini é um cineasta, eu sou apenas um diretor de filmes.” Modéstia à parte, ou não, Manga deixava claro que existiam, pelo menos, dois tipos distintos de realizadores de cinema, aqueles cujo trabalho duro resulta num filme e aquela meia dúzia de privilegiados que fazem arte.

Guilhermo del Toro, inquestionavelmente, pertence ao seleto clã dos artistas. A transposição de Hellboy para o cinema consolidou o trabalho de um cineasta maduro, inteligente, ousado e com o domínio total das ferramentas de trabalho.

O Labirinto do Fauno, filme dirigido por Del Toro logo após a produção da primeira aventura do garoto do inferno, é puro cinema. E é cinema porque é visual demais. Cada fotograma, cada imagem, cada detalhe em cena tinha a intenção de transmitir uma mensagem: a de que, por mais incrível que pareça, é possível contar uma boa história na tela grande.

Se você é daqueles que acha que ao morrer Kubrick levou consigo o que restava de dignidade na sétima arte, um conselho: assista O Labirinto do Fauno e vivencie a experiência de desfrutar de uma autêntica obra de arte.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Fé e sangue


Ridley Scott anda com maestria na linha tênue que separa as obras de arte das criações bizarras. Com uma média expressiva de um filme a cada ano e meio, o cineasta vem se equilibrando como pode nesta corda bamba. Gladiador, o filme, pertence à primeira categoria.

Uma das muitas histórias que ronda a produção é a de que Scott teria ligado para prefeitos de várias cidades e perguntado: “Ei, por acaso vocês tem uma floresta inteira para queimar?” Quem assistiu a batalha inicial do filme vai entender porque era necessário queimar uma floresta inteira.

Apesar do sangue espirrado na tela em doses generosas, o tema do filme não é violência e sim outro, digamos, mais prosaico: a fé. Duvida? Segue a relação dos personagens e de suas crenças.

Maximus (o Gladiador): O general que se tornou escravo e depois gladiador acredita que a violência expressa nos campos de batalha é justificável se trazer a paz e possibilitar o seu retorno para os braços da mulher amada.

Marcus Aurelius (o Imperador Traído): O imperador romano crê que seu melhor general possa se tornar o líder que Roma precisa, mesmo que isso implique em jogar o filho, herdeiro natural do trono, para escanteio.

Commodus (o Filho Invejoso): Commodus é dos personagens aquele que tem mais fé. Ele acredita com convicção ser o melhor para o povo romano. Panis et circense, na sua nebulosa compreensão, é a nova tábua de salvação.

Juba (o Amigo Fiel): Juba é o prisioneiro que se torna amigo do solitário gladiador. Ao seu lado Maximus vai entender que a fé nas pessoas é possível, como aquela que Juba tem de um dia rever sua família.

Proximo (o Mercador Boa Gente): Proximo ganha vida com a morte das pessoas, seu estilo de vida é sustentado pela dor alheia, mas mesmo assim o negociante tem bom coração. Sua esperança é de honrar o homem que lhe deu a liberdade, justamente o imperador deposto.

Ridley Scott (O Diretor Esperançoso): Com uma história que tinha tudo para cair na pieguice do herói solitário contra o mundo de injustiça, Scott faz um filme bem amarrado e coeso. As batalhas internas dos personagens são maiores que as travadas com lanças, escudos, cavalos e tigres. Uma das melhores frases do filme é dita pelo então general Maximus que grita em frente aos seus melhores homens: “O que fazemos em vida ecoa por toda a eternidade.” Ridley Scott sabia disso e tratou de fazer um bom filme.