sexta-feira, 24 de julho de 2009

Autoridade e disciplina

Que a saga de Harry Potter flerta com a filosofia clássica não é nenhuma novidade. Um livro inteiro dedicado a esse assunto foi lançado pela editora Madras há não muito tempo. A questão moral e ética do indivíduo, o bem contra o mal, o apego aos valores e virtudes, o inegoísmo como a única alternativa para evolução humana e tantos outros temas já foram abordados por J. K. Rowling, com maior ou menor intensidade, nos sete livros da série. Coube a cada um dos cineastas responsáveis pelas adaptações cinematográficas selecionar as abordagens que julgavam fundamentais para transformar em imagens as palavras da escritora.

Em Harry Potter e o Enigma do Príncipe, sexto filme da franquia do bruxo teen, o diretor David Yates privilegia ao longo dos 153 minutos de duração dois temas principais que, não por acaso, perfazem os elementos motivadores das personagens centrais e influenciam diretamente as decisões por elas tomadas: a autoridade e a disciplina.

No filme, a autoridade se manifesta em suas duas formas tradicionais: a teórica e a prática. O exemplo de autoridade prática cabe ao Professor Severo Snape. A autoridade de Snape frente aos alunos se manifesta de forma prática, ou seja, eles temem o professor muito mais em razão da sua posição, da sua possibilidade de puni-los, do que efetivamente por seu conhecimento. O antagonismo entre Harry e Severo Snape advém, principalmente, desse questionamento. É claro que Snape tem as qualidades e o intelecto necessário para ser um dos mais principais professores de Hogwarts, mas sua forma de agir o faz ser reconhecido como alguém a ser temido e não como alguém a ser respeitado.

O diretor Alvo Dumbledore, por sua vez, é a expressão singular da autoridade teórica. A autoridade teórica é exercida por aqueles que detêm o conhecimento e, principalmente, sabem manifestar seu saber e transmiti-lo aos demais. Dumbledore se encaixa com precisão no papel do mestre, do sábio. Suas ações primam pela nobreza e, mesmo quando em certo momento do filme ele diz à Harry que mais uma vez precisará exigir muito dele, sua autoridade é manifestada pela sabedoria e experiência, e não pela força ou imposição. Como Sócrates quando disse que só sabia que nada sabia, Dumbledore também conhece suas limitações e fraquezas, e é justamente essa consciência que o torna superior aos demais.

A disciplina, no entendimento mais profundo do termo, está presente em grande parte dos aprendizes de bruxos de Hogwarts. Cada um dos estudantes busca se disciplinar para aprender mais e evoluir como bruxo. Mas as três características que fazem de um aluno um discípulo, devoção, investigação e serviço, estão presentes em Harry Potter mais do que em qualquer outro.

Harry é devotado integralmente ao seu mestre, no caso Alvo Dumbledore. As palavras do sábio têm força de lei para Potter que, em determinada seqüência do filme, obedecendo ao que Dumbledore lhe ordenara, acaba impingindo-lhe dores terríveis. Acreditar no mestre é fundamental para o discípulo, custe o que custar, doa a quem doer. A investigação aparece em muitos momentos do filme como quando Harry espiona Draco no vagão do trem ou quando ele tenta descobrir o segredo que guarda o professor Horácio Slughorn. E o serviço se manifesta justamente nas ações de Potter ao seguir a sabedoria e os conselhos do mestre. Harry experencia sentimentos nobres e sombrios, ambos necessários para que ele cumpra sua difícil missão.

Harry Potter e o Enigma do Príncipe é, de fato, o início do fim da história do bruxo mais famoso do mundo. Que as relíquias da morte não tardem a ganhar as telas grandes.

2 comentários:

Evandro Duarte disse...

Bad times has come...

Everton disse...

Filosofia, História, Sociologia e Psicologia são as ciências presentes na melhor série de livros já publicados sobre a História da Magia